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Para navegar em tempos de falta de água

A grave crise hídrica que o Brasil enfrenta já causa efeitos consideráveis na atividade econômica do país. "Esperávamos uma recessão por conta da falta de água e essa preocupação continua. Em um cenário com uma recessão de 2%, naturalmente a demanda por água e energia cai - mas ninguém quer viver sob uma recessão de 2%. Estamos preocupados com a capacidade do país de gerar energia pelas próximas décadas", afirmou Caio Megali, economista-chefe do Itaú Unibanco, na abertura da plenária "Grandes desafios - crise hídrica". Megali foi o mediador do painel, que reuniu Juliana Nunes, VP de assuntos corporativos e compliance da Brasil Kirin, Claudia Canales, especialista em sistemas hídricos da Fundación Chile, Marcos Valero, líder da divisão de águas da GE, e Mario Barroso, coordenador do Programa Água Brasil (WWF). Confira a seguir algumas das principais considerações levantadas por cada um dos participantes:

Mario Barroso: "Deveríamos ter começado a planejar o uso racional da água quando havia uma abundância. Perdemos essa oportunidade. Existem dados públicos, coletados nas últimas décadas, que vêm apontando crises nas regiões Norte e Nordeste, além do caso recente do Sudeste. Desde os anos 1980, aumentaram os casos de calamidade pública por conta de secas, inclusive na Amazônia. O Brasil tem a vocação de ser um grande produtor de alimentos, e precisamos cumprir esse papel. E a agricultura sempre vai demandar muita água. Por isso, precisamos gastar cada vez melhor essa água."

Marcos Valero: "No Brasil, há um descompasso: as regiões com maior densidade hidrográfica também são as que tem menor concentração de atividade econômica. Enquanto isso, várias regiões metropolitanas têm sofrido queda no PIB devido à redução de oferta hídrica. Por isso, a GE investe muito em projetos de reúso de água, a fim de aumentar a disponibilidade do recurso e a resiliência dos usuários. Lançamos em junho um white paper sobre o tema e inauguramos em 2015 a primeira planta de grande escala de reúso de água pelo método MBR (membrana biorreatora)."

Juliana Nunes: "A Brasil Kirin sempre teve uma cultura de escassez hídrica. Não precisamos esperar a legislação nos obrigar a economizar. Há vários anos, estamos em diálogo com as comunidades do entorno de nossas fábricas, conscientizando sobre o consumo. E conseguimos aumentar o volume de águas subterrânea e superficial na região de nossa fábrica em Itu, atráves de um projeto de plantio de árvores em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica."

Claudia Canales: "O Chile tem diversos problemas ligados à água. Enfrentamos eventos extremos em diversas regiões, como secas e inundações. E esses eventos afetam atividades econômicas e despertam protestos sociais. Um problema grave é o compartilhamento de recursos entre usuários com interesses distintos: minas, indústrias, fazendas, cidades. Trabalhamos com projetos de redução de consumo, compensação e ajuste hídrico, com apoio importante do setor privado. A gestão compartilhada da água, entre empresas, poder público e cidadãos, é um tema fundamental."

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